|
THEÓFILO
SILVA
Na
peça Noite de Reis, é o nada bobo Feste quem observa: “Uns nascem
grandes, alguns adquirem a grandeza, e a outros, a grandeza vem ao
encontro”. José Sarney se enquadra na terceira categoria, a dos que
atingiram a grandeza pela sorte. O ex-chefe do partido político que
legitimara a ditadura militar – o fantoche dos generais - por uma
fatalidade tornou-se Presidente da República do Brasil.
Thomas Hobbes diz, no Leviatã, que há no homem um desejo perpétuo,
incessante, de poder que não cessa senão com a morte. Ele estava
pensando em Macbeth e Ricardo III, personagens do seu contemporâneo
Shakespeare. Sir Ney se enquadra nesses exemplos. A ocupação do cargo
supremo da nação por cinco anos, em vez de deixá-lo saciado, aumentou
seu apetite.
Seu governo foi um completo desastre: acusado de grossa corrupção;
levou o país a maior inflação de sua história; suspendeu o pagamento
da dívida externa e quebrou o país. Só conseguiu terminar seu
desastroso mandato porque a nação precisava desesperadamente se livrar
do fantasma dos generais. Finda a tragédia, Sir Ney não se retirou,
voltou ao Senado por um outro “feudo”, o do Amapá, entregando o do
Maranhão para os filhos, criando uma dinastia.
Representante legítimo das Capitanias Hereditárias, malfadada herança
colonial portuguesa- criadas pelos lusos para perpetuar a família no
poder. Sir Ney cumpriu a risca esse sistema. Há cinqüenta anos
controla – salvo um rápido interregno – a rica capitania do Maranhão,
“aquela onde nunca falta água”, dizem invejosos todos os
nordestinos. No entanto, é o estado com os piores índices sociais do
país, rivaliza com outra unidade “feudal”, Alagoas.
Aqueles que acham que Sir Ney vai abandonar a presidência do Senado por
ser o maestro do maior escândalo da história da República - não
estou exagerando - estão enganados. Nada o tirará de lá. A onipotência
e a incompetência são a mãe de seus desmandos. Ele está convencido
de que é inocente. Esse é seu estado natural. A única coisa que lhe
interessa é a proteção do seu clã.
|